27 outubro 2005

a coisa que é coisa

A coisa. Coisa que se diz, coisa que se fala, coisa que se sente, ou não. De um lado para o outro sem nunca parar para pensar nessa coisa.
A coisa. Para uns a coisa evidente, a coisa que é coisa, para outros nem tanto.
Certo dia pensei: "E se as outras coisas não vêem a mesma coisa que eu?". E foi então que me lembrei que por mais que a coisa seja a mesma, os olhos das coisas que vêem a coisa nunca o são!

18 outubro 2005

palavras a metro

"Gostaria de ser capaz. Capaz de fazer e sentir aquilo que realmente faço. Mas não. Preciso de um cigarro.", disse. Pouca sorte a minha, já tinha um na mão. Foi então que pensei fumar dois ao mesmo tempo.
"A realidade é de facto uma coisa relativamente fácil de manipular. Ou não. A verdade é que partindo de nós próprios conseguimos alterar determinados momentos. Basta conhecermo-nos. E é essa a nossa derradeira imperfeição. Raramente nos tratamos por tu. Na maioria das vezes, o exterior é muito mais lógico que nós próprios, ou pelo menos, assim o pensamos.
Por isso é que gosto tanto de universos paralelos. Universos estes que me permitem explorar apenas uma fracção daquilo que sou, conseguindo desta maneira ter uma perspectiva muito mais objectiva de mim própria. De um passo para outro. E assim dou o salto de fracção para fracção." Não é difícil, basta convencermo-nos disso.

lisboa a 18 de outubro e hoje quase um ano depois

Um dia destes pediste-me uma coisa. Não uma coisa qualquer, aliás, tu nunca pedes algo facilmente realizável. Tu pedes sempre o impossível. Esse foi apenas mais um desses momentos.
Pensei então escrever-te uma história, mas isso é a tua vida. És um contador de histórias, de lugares longínquos, de pessoas diferentes e locais inóspitos.
Tentei levar-te para um lugar de ideias, de sonhos e de fracções de segundo. Fracções de segundo que por si só bastam. Foram as últimas
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o menino que queria ensinar os pássaros a voar

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Apareceu tão fugazmente quanto desapareceu sem deixar rasto.
Agradeço-lhe por não me ter acordado quando fechou a janela. Digo pela janela porque foi por ela que ele fugiu, mais uma vez. Chega-se de mansinho ao parapeito e parte, assim sem mais, sem barulho, nunca deixando para trás qualquer coisa que denuncie a sua presença. Eu nunca o vi verdadeiramente pois ele jamais se deixaria ver.
E assim nunca deixará de ser um sonho.
Certo dia, o menino assomou à minha janela. Fingi não o pressentir para que ele não ficasse desgostoso. Seria uma grande tragédia se o menino descobrisse que eu era capaz de reconhecer a sua presença. O menino precisa de pensar que é mais leve que uma pena e eu... eu faço-lhe a vontade.
Nada na vida é certo, o menino de cabelos encaracolados, muito menos.
De resto, eu já o sabia...
O menino vai e vem conforme o vento lunar. Eu não me importo, e é assim que gosto dele, com alma de pássaro. O pássaro menino que não prende, que não fica e que tudo pede.