27 setembro 2010

universos paralelos

Se há coisa que nos é comum de forma inagualável é a capacidade de ter saudades. Faz parte da nossa memória colectiva e provavelmente mais ninguém o sente como nós. Culturalmente crescemos agarrados a um tempo que já passou e que não foi o nosso. Por termos consciência disso fazemos das tradições o nosso elo a um passado demasiado distante. Alienada a estas efemérides das quais nunca fui muito adepta, não deixo de guardar na bagagem outras coisas que à partida parecem indesejadas. Tu és uma delas ainda que ninguém o compreenda. Ultimamente nem o sol mais caloroso tem minimizado a ausência de quem faz falta e por isso torna-se bastante difícil fingir que tudo corre de feição. Porque não corre. E por isso mesmo vou fazer o que hoje não é hábito fazer. Hoje vou queixar-me e lamber a minha pele lacerada. Hoje vou fazer a dança da chuva e uivar à lua minguante. Hoje não estou, nem quero, estar bem.

"Help, I have done it again
I have been here many times before
Hurt myself again today
And, the worst part is there's no-one else to blame" - Sia, Breathe me.

26 setembro 2010

soltar sal


Estávamos a precisar disto e por isso roubei-lhe a mão e levei-a atrás. Fez-se o que há muito não era feito. Num regresso a um passado pouco distante mas que ainda assim está demasiado longe, soltámos o sal que estava acumulado desde então e soube bem. Com ou sem ritmo no adn, saltar muito é sempre uma óptima terapia para tudo. Liberta o sal que está preso em nós e que não tem outra forma de sair. Chorar não é, nem nunca será, alternativa.

25 setembro 2010

hoje tenho desculpa

Dói-me tudo. Não há uma parte de mim que não se lamente e grite dor. A luz, os sons e a temperatura fazem mal a tudo aquilo que tenho à superfície do corpo. Sinto-me francamente mal e isso vê-se. Felizmente hoje já tenho desculpa. Que esta enfermidade dure até à próxima primavera para não ter de arranjar outra razão qualquer bem menos plausível. Até a uma próxima, vou arrumar-me no meu cantinho.

i.m. versão sem rosto




24 setembro 2010

nada a acrescentar depois disto

Não era suposto ser assim. Aquele que foi a maior paixão da sua vida foi também aquele que lhe deu o maior desgosto. Não a honrou e esteve muito aquém do que se espera de um pretenso cavaleiro andante. Uma lástima. Uma paixão deve ser consumida, não asfixiada. Pode-se ler no protocolo que se deve deixá-la arder. Ser gasta até não haver mais substância. Da forma como foi, mais se assemelha a uma morte na praia depois de ter sobrevivido a um naufrágio. Chega a ser pecado. Histórias destas raramente ficam registadas. Esta fica para que não seja esquecida.

23 setembro 2010

meias medidas

Aqui vamos nós... Se te moves de uma forma descontrolada será certamente porque tens um síndrome de hiperactividade que mais tarde ou mais cedo vai acabar contigo. Mas se pelo contrário mais parece que nasceste agarrado ao chão não passas de um fraco. Se, por outro lado falas muito, és inconveniente e se não dizes palavra és reservado. Se és fiel a ti mesmo não passas de mais um dos muitos narcisistas mas se pões as prioridades dos outros antes das tuas, nunca hás-de ser feliz. Se acreditas no amor é certo que és louco e se não lhe dás valor estás condenado ao inferno. No meio de todos estes factos consumados resta-nos ficar à deriva. De há uns tempos para cá tornei-me bastante crente. Certa de não fazermos a mais pálida ideia de como chegar ao fim sem desistirmos pelo caminho, uma e outra vez. E quando achamos que já pagámos a nossa dívida, voltamos ao princípio só mais uma vez e para não variar.

juro que nunca tinha ouvido esta

et voilà! Adoro coisas caídas de pára-quedas!

I want to be a good woman And I want, for you to be a good man. This is why I will be leaving And this is why, I can see you no more. I will miss your heart so tender And I will love This love forever I don’t want to be a bad woman And I can’t stand to see you be a bad man I will miss your heart so tender And I will love This love forever And this is why I am leaving And this is why I can see you no more This is why I am lying when I say That I don’t love you no more Cause I want to be a good woman And I want for you to be a good man.
CP, Good Woman

22 setembro 2010

alma de pássaro guerreiro

Provavelmente nunca to hei-de dizer. O nosso tempo já acabou e isto não ia acrescentar nada de bom. Mas ainda assim sinto, preciso e quero agradecer-te. Perdi o meu melhor amigo mas ganhei aquela que foi, até agora, a minha maior conquista. Com toda a tua obstinação aprendi a lutar por mim. E isso não tem preço. Se tu soubesses... aconteceu tanta coisa e eu não to posso contar. Fazes-me falta.

Tenho perfeita noção que separados somos os dois melhores, ainda que para isso tivéssemos de ter ganho força juntos.

continuas tão bonito

Por mais que quisesse esconder-se por detrás dos óculos e de uma postura muito discreta nunca o conseguiu fazer. Sempre foi um miúdo lindíssimo. Alto, muito magro e com o cabelo sempre desgrenhado o que lhe dava uma certa graça. Nunca trocámos mais de duas palavras durante todos os anos em que partilhámos corredores. Hoje a conversa flui sem grande embaraço. É engraçado perceber que com a idade ganhamos uma certa familiaridade com as pessoas que, de uma forma ou outra, tiveram impacto na nossa vida. Para ti, até uma próxima esquina.

amanhã


A partir de amanhã é tempo de comer castanhas, beber água-pé, andar de galochas, apanhar chuva na praia, regressar ao ninho, abrir a porta do quarto aos cães e ver com eles os filmes dos sábados à tarde. Este Outono promete. As portas e as janelas estão abertas para o deixar entrar.

21 setembro 2010

não há heróis

Os heróis são mitos em vias de extinção e como tal nunca vi um único exemplar dessa espécie que se diz tão especial. Por isso mesmo escolho aquele que é de carne e osso. O destemido guerreiro que traz para casa a bagagem e as marcas das inúmeras batalhas travadas. O que erra, o que chora, ri e ama como se o dia seguinte não estivesse garantido. Sabes uma coisa? Não está mesmo. E é por isso que o amor se rege pelas mesmas leis da guerra onde vale tudo. E aquele que não o ignora é o verdadeiro herói, aquele em que eu não posso deixar de acreditar porque no dia em isso acontecer será o fim dos dois.

"Struck from a great height by someone
who should know better than that"
,
FM - Dog days are over.

20 setembro 2010

lo siento, fue tarde demás.

É o ar que não entra. O sangue que não corre nas artérias e os fios condutores que deixam de fazer a função a que estavam destinados. O zumbido nos ouvidos é ensurdecedor e o equilíbrio vai ao chão. De certo modo, momentaneamente, morreu. Porque a dor é superior ao que é humanamente possível aguentar e porque não é suposto sobreviver-se impune e sem qualquer marca. Agora reza muito à noite para que isto passe depressa. Eu rezo também e peço a deus que as coisas melhorem nem que seja um bocadinho.

Num mundo justo, todos temos uma segunda oportunidade. E este é um mundo justo, por isso só se pode lamentar ter sido tarde demais.

19 setembro 2010

sangue

Corre-nos o mesmo sangue nas veias. Com uma ou outra variante é praticamente o mesmo. Para acentuar as semelhanças deus quis que estivéssemos todas no mesmo sítio, à mesma hora. Partilhamos a mesma capacidade de encaixe assim como a vontade de nos rirmos das nossas próprias desgraças.

Palavras da minha querida mana : " Nem o Cruz nos salva, nem o Santos. Com tanta influência cristã no nome e é o que é... Não quero sequer imaginar se fosse Pereira." Acho que está na altura de começar seriamente a acreditar que será o que deus quiser. E deus quer que sejamos muito criativas, pouco realistas e acima de tudo muito crentes.

17 setembro 2010

a minha cama

Tenho 30 anos e não era nada disto que eu esperava. Ainda assim não posso deixar de pensar como é possível estar no exacto ponto onde há anos deduzi estar. Como é que isto foi acontecer de forma tão linear? Ainda tentei combater o que me estava destinado mas foi mais ou menos o mesmo que remar contra a maré.

Talvez seja efectivamente suposto ser o meu cão a ocupar a metade vazia da cama... Hoje descobri que, para lá de uma cama excepcionalmente grande, tenho todo o tempo do mundo para fazer os desvios que me apetecer. Ainda assim recuso-me a perder a esperança e por isso o becas vai continuar a dormir no sofá durante mais algum tempo.

16 setembro 2010

enclave

Sem saber muito bem como já está. Já foi. Já "foste". E num ápice. De tal forma que nem me apercebi. Para não variar acontece tudo demasiado depressa sem sequer haver oportunidade de tirar o sumo. Chego à conclusão que sou uma ladra do tempo. Num momento de loucura corto tudo pela raíz e depois vem a desgraça. Como há coisas que não mudam, continuo a acreditar que posso tirar do baú a qualquer momento o que durante demasiado tempo esteve guardado. Acho que me enganei. Afinal o tempo é subjectivo e nunca só nosso. O tempo, o nosso tempo, é efectivamente o dos outros. E raramente os outros têm o mesmo tempo que nós.

14 setembro 2010

nunca sozinhos

Somos cinco. Somos muito diferentes e ainda assim sempre com a sensação que há qualquer coisa que nos vai agarrando uns aos outros. Talvez não por coincidência estamos todos no mesmo sítio e nenhum de nós sabe que coordenadas pôr no gps. Nenhum de nós sabe bem o caminho a tomar e por isso deixamos-nos ir. Somos cinco. Solteiros, psicologicamente danificados mas nunca sozinhos. Estou tentada em atribuir a responsabilidade disto ao adn porque de outra forma juro que isto não se justifica.

11 setembro 2010

coração que não sente

Sempre soube que se dissermos muitas vezes a mesma mentira mais tarde ou mais cedo começamos a acreditar nela da mesma forma ingénua que todos os outros. E rezamos, muito, para que um dia passemos também nós a vivê-la como se fosse de facto real. Acontece exactamente o mesmo com a visão. Só vemos o que queremos. Ainda que tenhamos os olhos bem abertos conseguimos perfeitamente evitar aquilo que não deve ser encontrado. O desencontro dos olhares é digno de registo fotográfico e perfeitamente inconsciente a bem da nossa sanidade. Olhos que não vêem, coração que não sente. Os milésimos de segundo em que tudo acontece é basilar para a nossa sobrevivência. Aquela fracção, a que nos salva de tudo o resto, e que ao mesmo tempo não nos deixa dormir.

09 setembro 2010

partida, largada, corrida

Tenho escassos minutos para dizer o que nunca disse. À laia de pacote de açúcar, hoje é o dia. Olho-me ao espelho e digo que basta. Que dou por terminada uma batalha perdida desde o início. E apesar de o saber desde o primeiro instante, a vontade de te ter por perto foi tão grande quanto a vontade de acreditar que fazíamos a diferença um no outro. Hoje é o dia em que tenho a certeza que não é assim. Não faz mal ainda que o lamente profundamente. Porque a verdade é que se não és tu, há-de ser um outro qualquer. Porque, por parvoíce ou por infantilidade, eu vou continuar a achar que existe uma consciência que sente e faz as coisas exactamente da mesma forma que eu.

17 minutos. Foi o quanto bastou.

08 setembro 2010

picar o ponto

Pode parecer rídiculo mas no dia em que ela morreu eu pensei que não queria passar por aquilo sozinha. E mais tarde, no dia em que ele morreu tive a certeza. Faltavas lá tu. Todos nós vivemos com a ausência de alguém e disso não morremos. Morremos de outras coisas bastante menos interessantes, mas a isto todos sobrevivem. Calculo que assim seja para que se possa deixar um legado. Certamente que também eu vou deixar o meu e para isso vou continuar a inventar a minha vida, mas preferia mil vezes fazê-lo contigo.

04 setembro 2010

upgrade ao homem do café - versão 2.1

Pronto. Vamos começar de novo. Pelo sim, pelo não, optei por acrescentar alguns upgrades necessários para que isto corra de feição. Já chegam os erros de casting. Então, em primeiro lugar vai ter de estar munido de grande capacidade criativa porque eu não sou, nem algum dia serei, uma pessoa realista. Vivo num universo paralelo onde tudo é permitido e não há em circunstância alguma lugar para o impossível. Bem vistas as coisas há sempre uma solução para tudo, até para mim. Terá de saber alimentar-me caso contrário morro à fome e não poderá de forma nenhuma encorajar o meu lado mais escuro a vir ao de cima. Não aprecio dar largas ao meu lado mais neurótico já que, solto o "monstro" torna-se complicado voltar a esconde-lo no baú. Pelo meio vai ter de gostar de relva, chuva, praia, cães, gatos e de sofás que juntos contam parte da minha vida. Por último, vai ter de gostar de mim, ainda que não o possa dizer tantas vezes quanto gostaria.

É esta mediação que vale por tudo. O famoso jogo do rato e do gato numa versão totalmente anárquica.

02 setembro 2010

cabeça perdida #2

Acorda às seis da manhã. Para ele não há sábados nem domingos. E sou capaz de apostar que não há natal que não seja passado entre a mesa de consoada e uma secretária qualquer. Não bebe, não fuma e não dorme. Faz corridas de quatro horas e é um homem encantador. Trabalha 16 horas por dia no escritório e outras tantas em casa. Não há líder como ele, assim como não há quem consiga ficar indiferente à determinação, à força e à resistência que tem. Pode cair o mundo mas a máscara que usa todos os dias, essa nunca cai. É uma força da natureza e não há como nega-lo. Hoje, deixaram-lhe um recado na bancada da cozinha. Hoje o seu coração parou. Para meu bem não parou de vez, mas pergunto-me se vou encontrar o mesmo homem quando um dia voltar a entrar-me vida dentro.

Põe-te bem rapidamente e da melhor forma possível. Sem ti as coisas levam-se pior.

01 setembro 2010

cabeça perdida #1

Assim não pode ser. Não a esta distância. Nem da forma como o fazes, assim sem mais. Entras a matar e depois, de mansinho, sais de cena sem autorização. Assim não! Assim não quero. Mais que não seja porque cada vez que dás um passo em frente, tenho noção absoluta que logo de seguida dás três para trás. E é nessa altura que te vejo a fugir-me das mãos sem ter oportunidade de te agarrar. É no fatídico momento que dás um bocadinho de ti que mais longe te sinto, portanto faz-me um favor e deixa-te sossegado. De preferência, perto. Muito perto. Mais especificamente, ao meu lado. E se num momento de pura insanidade não te parecer a melhor opção, se num momento de cabeça perdida tiveres a sensação que eu não sou quem tu queres que eu seja, então finge-te em coma profundo e deixa-te ficar. Prometo não te alimentar.

e amanhã, hoje não se repete nunca mais

E pronto. Reza a história que foi um duelo duro. Onde não houve vencedores, só vencidos. Aqueles que Deus quer tornar imortais, cedo leva-os de nós. Parece-me que neste caso, Deus teve uma ideia semelhante. A minha dúvida é: e se por gozo Ele tem mais destas preparadas para mim? Da próxima vez não garanto que vá achar tanta piada.