02 março 2005

ao estilo de navarro-costa

Nota de introdução:
Este texto é unica e exclusivamente da responsabilidade de um amigo muito querido, Paulo Navarro Costa. Apreciem-no. Bem-vindo a este espaço!
.
.
É muito longe e eu não posso levar este corpo… É pesado demais…”

Saint-Exupèry, in O principezinho.


“Je croyais que ça n’arrivait que aux très vieilles gens, d’avoir semé sur leur chemin tous leurs amis, tous”.

Saint-Exupèry, 1940.


- Hoje escrevo eu – digo ameaçando o écran branco-anémico que repousa provocantemente no topo da secretária. Não será como os outros dias, em que deixo a folha áspera do caderno guiar a caneta como lâmina de barbear em rosto mal dormido. Nesses dias, não sou eu que escrevo. É a folha. É a caneta. Ambas se servem dos meus dedos para rituais perversos, num jogo de domínio e submissão em que se usa e ousa.

Hoje não será assim. Defronte de mim tenho uma constelação de teclas que dedilharei como as costas de uma amante, pele macia, arrepio que começa com “pause” e termina com “enter”. As teclas afundam-se após uma suave pressão, sinto a resistência do écran que progressivamente se escurece com nuvens de verbo. Terei que atingir a quota de bytes suficiente para chegar ao precipício desta folha, precipício esse que estabeleci como meta para o meu esforço e para a vossa paciência.

Precipício e principezinho são palavras tão parecidas. O mesmo altivo “p” a iniciá-las, o “r” matreiro logo a seguir, aquele “cip” a meio, a língua já lúbrica com promessas que são desfeitas por um terminar abrupto, forçado pelo “c” ou “z”, onda violenta na rocha depois de canto de sereia. A Bárbara é assim. Quero dizer, a escrita da Bárbara é assim.

Ela leu o livro de um fôlego, impulsiva como é. Eu não. Intercalei-o com um livro sobre a guerra colonial e outro de poesia. Curiosa combinação, dirão alguns, mas todas as noites milhões de personagens morrem em livros. É caso de perguntar, quantos já matou, caro leitor?

Pelo que conheço dela, certamente que é Petite Princesse, mas como na elegante gravura que adorna a sua página, também é raposa sedutora. Pois é a mesma Bárbara que nos avisa, “É porque é, e assim fica sem mais explicações”, aquela que maliciosamente nos tenta com rendilhados linguísticos, bondage metafórico “É esse toque de magia que nos permite criar laços uns com os outros”. Nó cego, segue o texto para o precipício. Com distância de segurança.