11 maio 2007

a velha e a fé

“Se ainda não morri é como se já tivesse acontecido”, diz ela.
Respira o mais fundo que consegue para sentir o ar a entrar-lhe pelo corpo. Afinal ainda está viva, ainda que não perceba como e porquê. Muito ao longe ouve vozes que não lhe dizem nada. Percebe que a chamam mas não reage. Não consegue. E assim ficou. A olhar para as ondas que um dia tentaram sussurrar-lhe ao ouvido que existem coisas no mundo as quais jamais se podem alcançar.
Nunca ninguém soube dizer ao certo o que tinha acontecido com a velha. Mas alguém contou um dia que tinha sido um desgosto, o qual nunca chegara a superar.
Assim era ela. A velha da falésia. Todos os dias, os habitantes da terra a viam chegar e dirigir-se à falésia. Cumprimentavam-na, mas da sua boca nunca saiu palavra. Ficava calada, sentada nas pedras no último degrau antes do precipício.
Nunca se soube o que ela fazia sentada todos os dias na falésia. Mas ela sim.
A velha estava à espera. Mas tanto esperou que se esqueceu daquilo por que tanto esperava. Mas apesar dos anos lhe terem tirado a memória, a velha nunca deixou de lá ir. Acreditava piamente que se um dia aquilo que esquecera aparecesse, ela saberia de imediato aquilo que procurava.
Chama-se a isto fé. Fé pelas nossas certezas. Certezas que fazem com que nunca desistamos de respirar para saber que continuamos vivos. É isso que nos mantém vivos num mundo que se quer cruel, onde as pessoas já não conhecem a palavra amor, onde já ninguém respira tendo perfeita noção disso. É um mundo de mortos-vivos, onde ninguém sabe quem que é.