Normalmente, comento o que consegue sobreviver ao trânsito, à exaustão, às brigas, às buzinadelas na ponte e àquela rotunda do Centro-Sul que me transforma num animal igual a tantos outros que por ali circulam. Se a memória por vezes fraqueja é porque presencio a tanta bestialidade que quase petrifico. Petrificado, o meu estado actual, significa transformado em pedra, assombrado, estarrecido, que nao se desenvolve, que não evolui. Assombrada sim, mas evoluo, pelo menos mediante as minhas capacidades. Se bem que, e nisto devo ser sincera, as minhas capacidades não estão na sua performance óptima... pois não estão, não. Continuando na minha dissertação sobre whatever (ouvi dizer que esta palavra tem direitos de autor, mas sinceramente que se lixe o autor!) estava a dizer que mediante todos os actos de bestialidade com os quais nos deparamos actualmente, como ter tempo para reflectir sobre coisas mais importantes? Sim, já sei, tenho de aprender a ser superior. Mas eu respondo-vos do seguinte modo: Somos ser sensíveis certo? Somos seres que estamos abertos a todas as sensações vindas do exterior. É naturalmente tácito que uns tomam mais consciência dessas sensações que outros e que a isso se chama se percepção. Ora, se somos seres abertos às experiências exteriores é normal que mediante tanta bestialidade, as coisas realmente importantes passem um pouco despercebidas. Acontece exactamente o mesmo quando estamos perante algo verdadeiramente grotesco. Normalmente é mais fácil cativar a atenção de terceiros através do choque do que propriamente com algo verdadeiramente erudito, exemplo perfeito daquilo que vos retrato é aquele spot do shampô. E é assim que as coisas, que realmente interessam, acabam por desaparecer pelos meandros da memória. Aliás, o que é uma teoria perfeitamente plausível quando for acusada de memória fraca. Nessa altura que vou declinar a responsabilidade da minha falta de memória para os actos bestiais a que assisto todos os dias. O belo do português declina sempre as responsabilidades para terceiros. E é isso que vou fazer... Ando eu a ralar-me com politiquices e protocolos...
Hoje, o que sobreviveu a um dia muito atarefado foi mais um acto bestial, não no sentido de perfeitamente espantoso, mas sim de besta. Mais uma vez, a minha inteligência, a minha percepção das coisas realmente importantes foi atropelada por uma coisa realmente fantástica... que outro nome lhe chamar senão bestial.