27 fevereiro 2005

um toque mágico

Em conversa, um amigo perguntou-me se eu já tinha lido "O principezinho", dado que a minha maneira de escrever tinha algumas semelhanças. Para ser sincera, tinha lido apenas algumas partes para um trabalho da faculdade, mas depois, a curiosidade levou-me a ler o livro completo. Pois bem... não parei! Bebi todas as palavras, com grande entusiasmo, tal qual como uma criança; que com grande orgulho faço por manter dentro de mim. O livro creio que todos já conhecem, mas penso que nunca é demais reafirmar que é um livro intemporal, para todas as idades. Aliás, se me é permitido acrescentar (claro que é... estou no meu blog) penso que seja um livro em especial para adultos. Não um adulto qualquer... Um adulto não iria dar o verdadeiro valor ao pequeno grande livro. O que se retira do livro é algo que ultrapassa as palavras.

Sempre fui da opinião de que as palavras limitam um pouco a existência humana. Basicamente, as palavras impedem que as pessoas atinjam outros domínios não abrangidos por elas. Pois é, o sentimento, uma amizade nunca poderá ser realmente traduzido em alguma coisa. É porque é, e assim fica sem mais explicações. E neste caso, Saint-Exupèry foi capaz de jogar como ninguém com situações, personagens, diálogos e palavras.

Gostei especialmente de dois pontos no livro- a relação do principezinho com a flor do seu planeta e o diálogo entre o principezinho e a raposa.
O primeiro porque retrata, de um modo geral, a capacidade que temos de lidar com as fragilidades dos outros. Normalmente as pessoas têm a tendência para apontar o dedo às outras, é muito fácil não acham? E não me venham dizer que não faz mal se forem críticas construtivas. Para mim é muito mais importante ter um amigo que saiba entender os meus erros, do que ter um que à primeira hipótese está a dizer o que posso/devo ou não fazer. É isso que trata a amizade, a capacidade de compreensão e de respeito entre as duas partes, mesmo que muito diferentes. É a capacidade de partilha apesar de todas as contrariedades da vida, é a amizade pela substância da pessoa e não propriamente pelos seus actos. Mas há que ser condescendente... a maioria das pessoas têm uma pala nos olhos, tal qual bestas de trabalho, que não lhes permite ver um pouco mais além. E com eles, principalmente com eles, é necessário um certo de nível de altruismo. Aliás, acho que única e exclusivamente com eles.

E isto vai dar invariavelmente à segunda coisa que mais me cativou no livro - a conversa entre a raposa e o menino dos cabelos dourados. Para que nos tornemos realmente importantes, e para que não sejamos todos iguais à vista de alguém, é imperativo cativar essa pessoa, criar laços com ela. O modo como se o faz nao interessa... se cada um o fizer à sua maneira, teremos definitivamente um lugar cativo no seu coração. O acto de cativar depende de cada um de nós. Cada um cativa com um aspecto diferente, se assim não fosse, continuavamos a ser todos iguais, não é? E é esse "toque" da nossa personalidade, com esse aspecto que nos tornamos diferentes e não indiferentes. É uma espécie de magia que paira em nosso torno que nos torna especiais. É esse toque de magia que nos permite criar laços uns com os outros. É isso que nos torna especiais para os outros e para nós próprios. E não se esqueçam: what is essencial is invisible to the eye.