Normalmente, o mar e o sol ajudam-me a acalmar. Normalmente, vou para a praia para abafar no barulho das ondas o meu silêncio. E hoje, isso foi-me negado. Normalmente, fico horas sem que ninguém me dirija a palavra. Logo hoje, isso foi-me negado. Alguém estava a tentar dizer-me qualquer coisa, mas o quê?
Qualquer que tenha sido a mensagem, não a consegui ouvir. O barulho das ondas deve ter sido suficiente forte para levar palavras vãs, palavras que nunca me hão-de levar a lugar algum.
Começo a achar que as palavras vinham de dentro de mim, afinal era mesmo eu que estava a tentar dizer alguma coisa e fui eu que não as quis ouvir.
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Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
Sophia de Mello Breyner