Se tudo não não fosse mais do que aquilo que tenho à minha frente, a minha vida estaria reduzida a dez caixas de cartão. "Aquela sou eu empacotada", digo. Mas daquele monte de caixas desiguais, retiradas de um contentor porque ainda não tinha chegado a hora delas, apenas escolho duas peças que guardo por razões que ultrapassam a utilidade... A minha preferida: um copo que me foi oferecido há já demasiado tempo. Um copo que nunca foi utilizado porque primeiro nunca teve par, porque depois se tornou parte da decoração e finalmente porque se tornou demasiado valioso para correr o risco de se partir nas mãos de quem não lhe conhecia a história. O valor não está de facto no objecto, está sim nas vezes que o quis partir por raiva à pessoa que mo ofereceu, nas vezes em que o segurei com saudade e que hoje faz parte de mim. Foste tu quem bebeu o meu café vezes sem conta, foste tu quem sobreviveu às minhas trevas e que ainda hoje atende o telefone, com uma paciência de santo, e que produz o som típico de quem já me conhece há demasiado. O tempo passou-nos por cima sem que nos déssemos conta e ainda assim tu continuas comigo de uma forma que provavelmente só nós dois entendemos.
Hoje encontrei-te e segui porque é suposto assim ser. Mas no momento em que o telefone toca, a conversa flui sem a noção do tempo ou do espaço que nos separou. Como se de um mero recado esquecido se tratasse. A despedida? Com um breve até já porque de facto é-o sempre.
Hoje encontrei-te e segui porque é suposto assim ser. Mas no momento em que o telefone toca, a conversa flui sem a noção do tempo ou do espaço que nos separou. Como se de um mero recado esquecido se tratasse. A despedida? Com um breve até já porque de facto é-o sempre.