Acordo de uma noite aconchegada por um miudo muito doce, perfeito para quem sofre de hipoglicemia. Pensando no quão bem me parece o dia que se avizinha dirijo-me ao quarto-de-banho acompanhando a sessão musical do vizinho. Inclino-me para procurar a minha escova de dentes e nessa altura ecoa em alfama um grito impróprio para cardíacos. Algo maléfico e assustador está a ocupar o espaço entre a minha mão e a escova de dentes. Assim que me recompus, pensei: "Calma porque só pode ser imaginação tua. Aquela coisa amarela, não é aquilo que pensas. Aliás, nem lá está. É fruto da tua imaginação." Enchi-me de coragem e espreitei novamente, confiante de que estava a ter alucinações. Sim, porque a esta altura tudo me parecia melhor à realidade. A minha mão tenta passar por ela, ignorando-a a todo custo mas por lapso, ou ironia do destino, no momento em que estava praticamente a chegar ao meu objectivo, toco-lhe de leve e alfama estremece de novo. "Pronto. Confirma-se. Ela existe. O que é que faço agora? Mais, como é que isto veio cá parar?" Na esperança de ouvir uma resposta ainda perguntei em alto e bom som se num momento de pura insanidade tinha dado autorização para aquilo estar ali. A resposta tardou e nunca chegou. Mas aquilo não podia ficar ali, impune. Alguém tinha de pagar pela intrusão.
Estava a pensar em deitá-la ao rio, num saco preto para que ninguém descobrisse o meu crime macabro. Mas olhando bem e com atenção, ela parecia-me tão indefesa. Afinal não passava de uma coisa desgastada pelo tempo que não tinha lugar em lado algum.
"Ok. Pronto. Está combinado. Ficas na gaveta. Na tua gaveta, que espero sinceramente não ser ocupada por outras coisas despropositadas como tu. Será um segredo só nosso... É que uma sabe a pouco e duas são demais."
"Ok. Pronto. Está combinado. Ficas na gaveta. Na tua gaveta, que espero sinceramente não ser ocupada por outras coisas despropositadas como tu. Será um segredo só nosso... É que uma sabe a pouco e duas são demais."