12 agosto 2007

vida de cão

Acordo e olho para ela. Espreguiça-se a jeito de Francesca e diz-me um "bom dia, amor" meloso. Corre para o chuveiro porque para variar está atrasada e enquanto lá está tenho a cama só para mim. Estico-me, rebolo-me e esfrego-me nos seus lençois. Ela não gosta muito, mas o "dadinha feia, não faças isso!" não é para ser levado muito a sério.
Sai do banho e veste-se à pressa. O ritual de todos os dias. Eu fico a vê-la, agora da minha cama. É simpática. Caótica, mas amorosa. Está sempre a queixar-se do tempo que não tem. E à conta disso, já passaram por aqui algumas pessoas que nunca ficaram muito tempo. Eu não me importo porque assim tenho-a só para mim. Mas ela às vezes chora. Muito. Felizmente, tão depressa começa como acaba, o que significa hora do passeio. O nosso tempo. Aquele que é só nosso. Onde não há mais ninguém. Nem a Francesca.
Essa é outra. Apareceu há dois anos. Pensei que não sobrevivesse porque era muito pequenina. Mas não. Não só cresceu para contar a sua miserável história, como ainda tem saúde para andar atrás de mim com as garras de fora. É chata e não gosto muito dela. Tem a mania de me roubar os croquetes para brincar com eles. Será que a parva não percebe que é de mau tom brincar com a comida, principalmente quando essa comida é a dos outros? A minha pessoa já está pronta. Dá uma festa à Francesca e outra a mim complementada com um beijo no focinho. Depois pega nas coisas dela e dirige-se para a porta com as chaves na mão.
Volta-se para trás antes de sair e diz: "Volto já. Não demoro muito. Gosto muito de vocês."

08 agosto 2007

o fatíco mais do mesmo

A expressão a utilizar é "não posso com um gato pelo rabo"... mas causa-me calafrios. A imagem mental que se cria não é das mais estéticas. Por isso uso outra. Não tão verdadeira. Nem tão crua. Com um sem número de corantes e conservantes. Porque prezo a vista com óculos de sol que filtram o que me é nocivo aos olhos. Porque adoro o que é fugaz e ainda mais as perspectivas vistas à lupa. Faço das últimas a minha vida. Perspectivas sem contexto, distorcidas e desencontradas, como nós. Não me pergunto como ou porquê, porque invariavelmente não o sei. Mas sei que dependo das fracções de segundo para as viver. Uma palavra, um gesto, um som num determinado momento fazem estremecer toda uma plateia, então porque não a nós?

07 agosto 2007

les choses d´or

O que mais gosto: o encaixe perfeito. O que menos gosto: o facto desse pormenor nos levar irredutivelmente ao engano. Não é justo, mas sabe bem. No momento em que as palavras não fazem outra coisa senão limitar-nos, vale o silêncio que as espaça. Ainda assim, não suficiente porque nunca nada o é. Poucas são as coisas que fazem a diferença. E também isto não é justo. Todos nós deveríamos ter direito a elas de vez em quando.
As minhas preferidas: o encosto num ombro, um beijo com um suspiro pelo meio, uma mão que se aperta no momento certo e uma palavra que se diz no mais absoluto silêncio.

05 agosto 2007

até já

Se tudo não não fosse mais do que aquilo que tenho à minha frente, a minha vida estaria reduzida a dez caixas de cartão. "Aquela sou eu empacotada", digo. Mas daquele monte de caixas desiguais, retiradas de um contentor porque ainda não tinha chegado a hora delas, apenas escolho duas peças que guardo por razões que ultrapassam a utilidade... A minha preferida: um copo que me foi oferecido há já demasiado tempo. Um copo que nunca foi utilizado porque primeiro nunca teve par, porque depois se tornou parte da decoração e finalmente porque se tornou demasiado valioso para correr o risco de se partir nas mãos de quem não lhe conhecia a história. O valor não está de facto no objecto, está sim nas vezes que o quis partir por raiva à pessoa que mo ofereceu, nas vezes em que o segurei com saudade e que hoje faz parte de mim. Foste tu quem bebeu o meu café vezes sem conta, foste tu quem sobreviveu às minhas trevas e que ainda hoje atende o telefone, com uma paciência de santo, e que produz o som típico de quem já me conhece há demasiado. O tempo passou-nos por cima sem que nos déssemos conta e ainda assim tu continuas comigo de uma forma que provavelmente só nós dois entendemos.
Hoje encontrei-te e segui porque é suposto assim ser. Mas no momento em que o telefone toca, a conversa flui sem a noção do tempo ou do espaço que nos separou. Como se de um mero recado esquecido se tratasse. A despedida? Com um breve até já porque de facto é-o sempre.

01 agosto 2007

solilóquio

Estou perdida. A história é sempre a mesma. O final já o sei de cor. Ainda assim, não sei o que é o certo ou o errado. Ou melhor sei. Mas não desisto do que é feio, mau ou falso. Não páro de correr. Desta vez em direcção a ti, não no sentido oposto como é habitual. Acho que definitivamente tenho um problema. Daqueles graves. Daqueles que permitem ter uma lúcidez aterradora, e que ainda assim não evita este terrível momento. O momento do solilóquio:
"Não é a ideia mais brilhante que tiveste. Sabes disso não sabes? Respira fundo e acaba com isto de uma vez. Nem tens de te esforçar muito. É tudo uma questão de não piorar o que já foi feito. É uma questão de estares sossegada. Não o alimentes e deixa-o morrer."

30 julho 2007

queixume

Falta qualquer coisa.
E apesar de eu querer a todo custo renunciar a falta que fazes, o esforço nunca é suficiente. Literalmente, nunca chega. Convenço os outros da ausência que não sinto, dos actos helénicos de que sou capaz. Mas também isto não me sobeja.
Fazes-me falta. Espero e desespero porque não sei quem és.
Porque te procuro e não te encontro.
Porque quero a todo custo acreditar que existes,

Ainda que noutro ponto distante do meu.
Serás tu quem:

Rir-se-á das minhas tolices com cumplicidade.
Adormecerá no meu sofá nas tardes de chuva.

Partilhará as minhas longas leituras para a tese.
E me ensinará a fazer café.

Será esta a minha outra pessoa?

recado na bancada da cozinha

Gosto de te ver dormir.

Durante todo o tempo que o fazes, tens um sorriso maroto na cara. E quando acordas, espreguiças-te como um gato. E também tu ronronas, baixinho, e enlaças-te em mim. É bom. És doce. Não me canso de olhar para ti, e por isso mesmo, fico sempre com a impressão que te observo em excesso. És uma criança crescida, que não tem lugar em lado algum. Tento a todo custo minimizar isso. É por isso que te sou tão aprazível. No fundo sei que não passam de gestos inglórios porque na verdade eu não faço a diferença. A vida não te é mais fecunda com a minha permanência nela. É irrelevante. E é desgastante para mim sabê-lo.

Não passo de um sofá confortável em que te aninhas quando precisas. Às vezes dou-me conta que existem alguns momentos, particularidades relevantes. Infelizmente, apenas naquela fracção de segundo. E isso não chega. Queremos à força arranjar um motivo para acordarmos juntos que não seja a vontade de não querermos dormir sozinhos. Por enquanto ainda não o encontrámos. Esta mentira conveniente dá cabo de mim. Mas ambos queremos vivê-la à força.

12 julho 2007

hoje não

Porque não me apetece. Porque não sou capaz. A substituição por outra coisa qualquer nem sempre basta. Ás vezes, muitas vezes, é preciso mais do que um querer pouco certo. Mas hoje não. Hoje sou eu a derrotada. Perdida numa edificação de carácter que já dura há demasiado tempo.
Hoje entro em estado de latência. Porque nada foi certo. E porque nada o é. Porque dói. Porque corrói. Porque hoje mata.

11 julho 2007

ref.17061980

Se a renúncia e o acaso tocassem ao mesmo compasso, essa seria a minha vida. Mas tudo não passa de uma regra matemática em que duas linhas rectas apenas se cruzam no infinito. Não no início, a meio, nem no fim. E é isso que nos enloquece. Andamos perdidos à procura de qualquer coisa que se cruze na nossa vida. Uma outra vida também ela rumando para o infinito. Mas a falha não está em nós. A falha está na matemática. E é essa mesma falha, esse fosso, que faz com que procuremos tanto. A questão é que ninguém jamais olhou para o lado. Se assim o tivessem feito, por esta altura já todos saberíamos que ainda que não nos cruzemos, caminhamos lado a lado. Não passamos de códigos de barras. Uns seguidos de outros.

monólogo de marte

Não falamos a mesma lingua certamente. Tu vens de vénus e eu sou de marte. E temos um problema de timing, ambos sabemos disso. É talvez este o único aspecto em que estamos de acordo. E quando procuro algo mais que isso vejo um grande fosso que nos separa. Tu és uma idealista. Eu pelo contrário não sou nada. Nem bom nem mau. Apenas não sou. O que para ti significa que não existo.

És um ser perfeitamente desconcertante, sabes isso não sabes? Roubas a alma, levas a essência sem permissão e depois gritas o habitual preciso-de-espaço... O que é desesperante. Aliás tu és desesperante. Capaz do melhor e do pior. Tão depressa dás, como no instante seguinte tiras o chão que pisamos.

"Não prendes, não ficas e nada prometes"... assim gostas tu de dizer baixinho. Mas é mentira. Tu prendes. E cansas. E não dás lugar a outra coisa senão à renúncia. No entanto, à lupa, és tu quem tem medo. Medo de te deixares levar e entregar. Medo de te perderes por alguém que não por ti. Mas um dia vai acontecer. E aí sim, tu vais entender que por mais caminhos percorras, que por mais depressa que corras não escaparás. E quando isso acontecer será a tua derradeira era da rendição.

07 julho 2007

há mais uma estrela no céu

Deixou gargalhadas, que a doença não intimidava.
Deixou alegria.
Deixou uma vida.
Deixou esperança, ainda que o destino lhe tenha roubado aquilo a que tinha direito.
Deixou amor:
A todos aqueles que com ela aprenderam a manter a cabeça erguida.
A todos aqueles que souberam abrir o seu coração.
Deixou acima de tudo uma grande lição de vida.
E uma grande saudade...
Luísa, há mais uma estrela no céu.
Reparaste como brilha? Como ofusca todas as outras?
É a mais bonita não é? Essa estrela és tu.

06 julho 2007

o que o silêncio não diz por ela

Sinto a tua falta. E sinto também que não vou lutar contra isso.
Mas sinto que luto contra ti. Todos os dias, a todos os instantes.
Não vieste a calhar. E sinceramente é uma merda. No outro dia perguntaste-me se tencionava fugir. Na verdade a resposta é um redondo sim. E se ainda assim não fosse, perguntar-me-ia qual o objectivo de tudo isto.
Se calhar sou eu que estou errada. Sinto-me como um operário que não se lembra como desaparafusar porque passou a vida inteira a fazer exactamente o oposto. Mas talvez também não seja isto. Talvez não seja de facto suposto fugir. Porque provavelmente e porque no fundo não o quero fazer. Sabes uma coisa? Acho que gosto de ti.

04 julho 2007

um adeus

Estou tentada a apagar-te. Tenho o dedo no delete há várias horas. Já arrumei e guardei as minhas coisas. Nada já me prende a ti. Hoje decidi que chegou a altura de mudar. Não foi premeditado, mas assim terá de ser. Já chega.
Ainda assim custa. Custa apagar o que foi dito, sentido e chorado na tua presença. Fizeste parte da minha vida durante o tempo fantástico que levou o descobrimento de "me, myself and i". Mas agora já sei o que quero e não posso continuar aqui. Vou sair. Apagar o passado e correr para o futuro. Um dia escrevi qualquer coisa como " a verdade é que não há nada para lembrar, e o futuro é amnésico por defeito"... Mas se o é, porque é que custa tanto?
Um adeus sentido, de alguém que não te quer apagar hoje. E não o vou fazer. Para variar a razão é simples... apenas porque sim.

03 julho 2007

a história da minha vida...

Ser fonte de conforto para alguém que se cruze comigo não é novidade. Dou por mim a ser tudo o que os outros querem. Não é dificil: afinal todos procuram o mesmo. O preocupante é tudo não passar de um mundo paralelo. E apesar de não o fazer propositadamente, dou por mim a cantar-te a música da sereia. Pode até ser agradável, mas não passará de um fruto da tua imaginação. No outro dia disseste meio a sério, meio a brincar, que eu precisava apenas de existir e é nesse preciso ponto que tudo falha.
Não passo de uma miragem para alguém que não bebe há já demasiado tempo.

26 junho 2007

monólogo a dois

- "Vieste na altura errada... merda!
Devias ter telefonado primeiro, já sabes que não gosto que apareças aqui sem avisar. Tenho imensas coisas em que pensar. Isto não tem estado fácil sabias? Passo os dias a preocupar-me comigo mesma. O que quero. O que deveria querer e aquilo que já deveria saber à partida. Mas afinal o que é que fazes aqui? Tens alguma coisa para me dizer que eu já não saiba? Isso é impossível e tu sabes que eu sei. Por isso to pergunto novamente. Queres um café? Faço um terrível. Ouvi dizer que é óptimo para passar o resto da noite acordado."
...
Pronto está bem, não digas nada. Já percebi. Mas afinal o que é que esperavas... eu não te avisei que seria assim? Chateias-me de morte quando ficas com esse ar de quem chegou aqui de pára-quedas. Tira imediatamente essa cara de cachorro abandonado. Já te tinha dito que não pode ser. Não quero que tu o queiras e também eu não o posso querer. É demasiado complicado e eu já disse que estou demasiado ocupada em ser infeliz e a martirizar-me por tudo aquilo que fiz e aquilo que ainda estou para fazer. Tu não és um dos meus planos. Por isso sai. Sai e deixa-me lamentar por isso. Não por seres tu, mas porque poderia ser um outro qualquer e eu continuaria sem disposição para o fazer."

25 junho 2007

winning a battle and losing the war...

Já vi este filme demasiadas vezes.
O cenário varia impreterivelmente porque nada se repete, ainda que as personagens sejam as mesmas. Mas as deixas e acima de tudo o desfecho da história é sempre o mesmo. É chato.
Dou por mim com vontade de desligar a televisão para não ter de assistir mais à história glicodoce, de dar vómitos ao mancebo mais guloso. Na verdade, hoje em dia tudo não passa de um mito urbano porque já ninguém morre de amor.
Estamos formatados para viver com isso. E o mais incrível é que continuamos a tentar, como salmões em época de desova procurando chegar a "bom-porto". É estúpido. Só alguns lá chegam e todos acabam por morrer. É também este o nosso fim. A parte boa? O percurso. As coisas tontas. Quando nada tem um propósito. Eu gosto das coisas postas desta forma. Pura e simplesmente porque sim. Porque apetece. Sem explicações. Sem barreiras à entrada ou à saída.
Sem galgar rios e com a certeza de que não vou morrer por esta causa... perdida já à partida.

17 junho 2007

um dia diferente

Apesar de hoje ser um dia diferente, isso pouco ou nada é relevante. É-o, mas não pela razão esperada. É-o porque mais uma vez este dia marcou outra coisa que não a ordinária. É-o porque mais uma vez dei um passo em frente, ignorando as mil razões pelas quais eu sou eu. Sim, acontece.
Este foi marcado por uma manifestação pessoal que muito revelou aquilo que sou verdadeiramente. Eu, uma mistura sem receita de uma ana e outra bárbara que não passam de água e azeite unidas à força. Desta vez a ana ganhou. Sem papéis nem receitas para medir a dose certa. Aconteceu. Apenas porque sim. Porque me apeteceu. Sem consequências. Sem explicações.

11 junho 2007

o síndrome de uma miúda igual a outras tantas

Vejo-o a dirigir-se a mim devagar.
Passo a passo, como alguém que quisesse outra coisa que não eu. E ainda que o veja a chegar, dou por mim incapaz de sair dali. Fico então ali, à espera. O meu coração entra em alerta encarnado. Ouço buzinas de emergência a ecoar na minha cabeça. E ainda assim não saio! Sinto o corpo sem chão, como se uma folha arrastada pelo vento se tratasse. E deixo-me ir.

06 junho 2007

recado no frigorífico

Tens definitivamente um problema de timing.
Não é novo. Sempre o tiveste.
Aprende a viver com isso.
Aliás, tu gostas mesmo é da pressão.
Daquilo que é caótico. Não compreensível. Desgastante.
É isso que te dá adrenalina.
Literalmente, tu gostas é de te meter em confusões.

05 junho 2007

isto não é uma história é o estado de cagufa

Cagufa. Estado de terror. De medo.
Medo de não saber o que quero.
Medo de saber e não conseguir lá chegar.
Medo de não ser suficiente.
Medo de não acreditar.
Medo de avançar.
Medo de ficar.
Medo de deixar por fazer.
Medo de tudo.
É este o meu actual estado. Credo, pela primeira vez em muito tempo, estou de facto a escrever sem personagens e cenários imaginados. Também isto mete medo.
Tenho todo um caminho desconhecido para percorrer e estou aterrorizada. No entanto, pela primeira vez em muito tempo, estou a sentir aquilo que as pessoas munidas de alguma sabedoria popular chamam de "nervoso miudinho".

04 junho 2007

o poder limitativo das palavras

Durante três dias chorou sem parar para pensar porque afinal o fazia e quando parou, tão pouco sabia porque o tinha começado. Limpou as lágrimas e saiu.
É este o maravilhoso mundo feminino. Choramos. Muito. Mais do que seria necessário. Mais que não seja porque de pouco serve. Mas não. Nós insistimos.
Lava-nos a alma. É por isso. É assim que carpimos a nossa raiva, o nosso desgosto e também a nossa alegria. Acho verdadeiramente deliciosa a forma leviana como uma mulher o consegue fazer.
Quando paramos, damos por nós a rir que nem perdidas porque de facto somos seres perfeitamente desconcertantes. E sabe tão bem sermos assim...

30 maio 2007

little things

Queria falar de todas as coisas das quais tenho saudades, mas o tempo já as desgastou.
Queria então que tudo voltasse um pouco atrás e que de novo sentisse para que então reconhecesse.
Lembro-me que tudo foi uma questão de opostos. O melhor e o péssimo.
Porque sofri como nunca tinha acontecido.
Porque chorei demais.
Porque voltava a fazer tudo de novo.
Há duas ou três coisas, as quais não consigo esquecer. E são essas que ainda hoje me fazem tremer que nem varas verdes quando sei que estás ali.

29 maio 2007

in a manner of speaking


In a Manner of speaking
I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing
In a manner of speaking
I don't understand
How love in silence becomes reprimand
But the way that i feel about you
Is beyond words
Oh give me the words
Give me the words
That tell me nothing
Give me the words
Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won't do
In this life that we live we only make do
And the way that we feel
Might have to be sacrificed
So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you
I should find a way
To tell you everything
By saying nothing...
(nouvelle vague)

28 maio 2007

lullaby

Fecho os olhos com muita força e digo a mim mesma para adormecer rápido. Mas não sou capaz. Fumo um cigarro seguido de outros tantos, mas o sono nunca chega. Algo inesperado, maravilhoso e aterrador aconteceu. Luto a todo o custo para ficar calada. E vou ficar. Já saldei a minha dívida e quero por tudo manter-me assim. Quero paz. Quero sossego.
O que eu quero mesmo é ter certezas e essas ninguém mas pode dar... Talvez sejas tu capaz de o fazer um dia destes. Agora apenas quero pedir-te desculpa. Por ter fugido. Por sempre ter sabido e nunca aceitado.
A verdade é que não o devia ter feito. Pura e simplesmente porque não o merecias. Porque de facto não foi justo. O maior erro que uma pessoa pode cometer eu já o cometi. Contrariar ou desacreditar a verdade é o que de pior há. Pergunto porque é que tem de ser assim? Mas isto não passa? Nunca? Sou literalmente o meu pior inimigo e muitas vezes também o teu.
Tenho medo. De te deixar. De te magoar. De te prender. Até mesmo de te fazer feliz. Porque acho sempre que mereces qualquer coisa melhor que não eu. De te fazer de meu porto de abrigo sem ser capaz de te dar algo em troca.

Mas sabe tão bem.
Não digas nada. Segura-me e não me deixes cair nunca. E deixa que eu faça o mesmo. Não porque o queremos, mas porque assim tem de ser.
Estamos juntos nisto quer queiramos quer não. É doença comum que não se trata. Que não nos deixa respirar, estejamos próximos ou afastados.

deixa contar-te como foi...

Antes que me esqueça quero contar-te como foi. Porque merece ser contado. Porque aprendi com ele, aquela que poderá ser a maior lição da minha vida.

Antes de mais, quero agradecer-lhe:
Por me deixar encostar a minha cabeça no seu ombro todas as noites.
Por me aconchegar enquanto dormia.
Por me deixar proteger-lo enquanto o fazia.
Por querer fazer de mim a miúda mais feliz do mundo.
Por me levar a lugares longínquos.
Por me dar aquilo que considerava ser amor.
Por quer fazer-me acreditar que as histórias de amor ainda acontecem, ainda que ele nunca tivesse acreditado nelas.

Ambos resolvemos lutar contra todas as probabilidades e tentámos. Tentámos partilhar. Tentámos ser felizes. Tentámos acima de tudo amar da mesma forma.

Uns morrem por amor em excesso. Nós morremos porque o amor de um era o anti-cristo do amor do outro. Foi por isso.

Não vou apagar da memória o seu carinho, os beijos e o amor à sua maneira.

A questão é que o “menino dos cabelos encaracolados” não chegou.

Nada chegou. Nada foi suficiente para dizer agora que um dia fui feliz.
Não ficou nada. Não restam sorrisos de saudade doce. Resta apenas um lapso de tempo que não consigo reconstituir. É por isso que escrevo. Para te contar como foi. Para que também eu não me esqueça.

Lamento por ele.
Por não me ter deixado fazer mais.
Por não me ter amado como devia.
A verdade é que não o soube fazer.

Saiu pela janela de mansinho, só como o menino com alma de pássaro sabe fazer. Um menino que um dia julguei meu.

24 maio 2007

sweet talk

hey candyman, please come crash into me!
this might be the sweetest song...

23 maio 2007

o ritmo substância das coisas

Sinto-me estranhamente bem. Ao contrário do que esperava, sobrevivi.
Interessante é o facto de eu conhecer estranhamente os próximos passos dos outros e o caminho que escolhem, e ser uma perfeita estranha para mim mesma.
Estou sempre à espera de cair redonda e de me aperceber disso apenas quando estiver no chão. Acho que é esse o meu maior medo:deixar-me cair sem noção de que estou a fazê-lo. Depois de um passo vem outro e dou por mim a andar. Livre.
Tento convencer-me de que já paguei a minha dívida e que finalmente sou eu. Só eu. Mas depois, vem o medo. Não de saber que o passado ficou lá trás, mas medo de me ter esquecido como se corre.
A verdade é não há nada para lembrar e o futuro é por defeito, amnésico.

14 maio 2007

talvez a música mais doce...

Aquela em deixa espreitar o sorriso tonto. O sorriso do enamoramento.

We got the afternoon
You got this room for two
One thing I've left to do
Discover me
Discovering you
One mile to every inch of
Your skin like porcelain
One pair of candy lips and
Your bubblegum tongue
And if you want love
We'll make it
Swimming a deep sea
Of blankets
Take all your big plans
And break 'em
This is bound to be a while
Your body Is a wonderland
Your body is a wonder (I'll use my hands)
Your body Is a wonderland
Something 'bout the way your hair falls in your face
I love the shape you take when crawling towards the pillowcase
You tell me where to go and
Though I might leave to find it
I'll never let your head hit the bed
Without my hand behind it
You want love?
We'll make it
Swimming a deep sea
Of blankets
Take all your big plans
And break 'em
This is bound to be a while
Your body Is a wonderland
Your body is a wonder (I'll use my hands)
Your body Is a wonderland
Damn baby You frustrate me
I know you're mine all mine all mine
But you look so good it hurts sometimes
Your body Is a wonderland
Your body is a wonder (I'll use my hands)
Your body Is a wonderland
Your body is a wonderland.

(j. mayer)

11 maio 2007

a velha e a fé

“Se ainda não morri é como se já tivesse acontecido”, diz ela.
Respira o mais fundo que consegue para sentir o ar a entrar-lhe pelo corpo. Afinal ainda está viva, ainda que não perceba como e porquê. Muito ao longe ouve vozes que não lhe dizem nada. Percebe que a chamam mas não reage. Não consegue. E assim ficou. A olhar para as ondas que um dia tentaram sussurrar-lhe ao ouvido que existem coisas no mundo as quais jamais se podem alcançar.
Nunca ninguém soube dizer ao certo o que tinha acontecido com a velha. Mas alguém contou um dia que tinha sido um desgosto, o qual nunca chegara a superar.
Assim era ela. A velha da falésia. Todos os dias, os habitantes da terra a viam chegar e dirigir-se à falésia. Cumprimentavam-na, mas da sua boca nunca saiu palavra. Ficava calada, sentada nas pedras no último degrau antes do precipício.
Nunca se soube o que ela fazia sentada todos os dias na falésia. Mas ela sim.
A velha estava à espera. Mas tanto esperou que se esqueceu daquilo por que tanto esperava. Mas apesar dos anos lhe terem tirado a memória, a velha nunca deixou de lá ir. Acreditava piamente que se um dia aquilo que esquecera aparecesse, ela saberia de imediato aquilo que procurava.
Chama-se a isto fé. Fé pelas nossas certezas. Certezas que fazem com que nunca desistamos de respirar para saber que continuamos vivos. É isso que nos mantém vivos num mundo que se quer cruel, onde as pessoas já não conhecem a palavra amor, onde já ninguém respira tendo perfeita noção disso. É um mundo de mortos-vivos, onde ninguém sabe quem que é.

13 março 2007

pardal em cativeiro

Eu conheço-te como as palmas das minhas mãos... talvez até um pouco melhor.
Tu és eu e portanto quer tu queiras, quer não queiras, nós somos a mesma pessoa. E por isso, e independentemente de tudo o resto, eu vou continuar a querer ouvir as tuas histórias e tu as minhas.
És a minha alma gémea, aquilo por que eu esperei anos sem fim. Esperei até achar que estavas preparado. Infelizmente o medo de te perder não me permitiu esperar o suficiente. Admito-o: deveria ter sido mais forte, afinal aquilo que é nosso às nossas mãos há-de vir parar. Enfim, precipitei-me. Acabei por perder aquilo que por anos esperei.
O mais inacreditável é que não te consigo odiar. Ficou sim, a certeza de que não mudaste, a certeza de que és o pássaro que morre em cativeiro.
Resta-me a certeza de que um dia tu me hás-de prometer o mundo e nessa altura, eu vou dizer que sim.

09 março 2007

há mar e mar, há ir e voltar.

A lua não é a melhor conselheira... por isso prefiro o sol. O sol e o mar. A última vez que lá fui, faz agora dois anos. Por esta altura desejo nunca lá ter estado. Mas não é que tivesse mudado alguma coisa. Às vezes é preciso ir ao encontro das ondas para termos a certeza que não sabemos nadar. Não posso dizer que me arrependo. Arrepender é verbo para coisas que não fazemos por falta de coragem. Por isso acredito que o fui. Até talvez um pouco mais do que devia.
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Podia ter-me afogado. Mas não. Para marcar o final da aventura ficaram apenas algumas nódoas negras.
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Se lá voltava? Sem dúvida. É para isso que nasci. Há mar e mar, há ir e voltar.

euforismos à parte

A vida dá sempre mais voltas do que aquelas que estamos verdadeiramente à espera.

28 dezembro 2006

aos que...

Aos que me apoiaram.
Aos que me ouviram vezes sem conta.
Aos que me fizeram ouvir.
Aos que me mostraram o lado mais cinzento da vida.
Aos que trabalham comigo todos os dias.
Aos que me sorriem pela manhã.
Aos que, independentemente da minha insanidade, continuam a quer partilhá-la comigo.
Aos me me odeiam, porque sem eles eu não saberia o que era o amor.
Aos que me amam incansavelmente.
E finalmente aos que me inspiram todos os dias, mostrando-me que a vida é uma coisa que merece ser partilhada.

07 outubro 2006

uma questão de escolhas

Um ou outro caminho. Ambos são válidos. O mesmo também se aplica a todos os restantes que nos aparecem pela frente. Mas eu só conheço dois. Um que espera, o outro que não me deixa descansar.

16 janeiro 2006

o meu pequeno príncipe

Assim foi a minha viagem a um lugar muito distante. Não fui ao outro lado do mundo, mas pode-se dizer que viajei para lá do imaginável. Não visitei museus, nem ruas, nem edifícios, nem nada. Não foi um avião que me levou até lá. Tão pouco uma bicicleta. Foi sim, um miúdo. Um miúdo chamado "O Meu Pequeno Príncipe".

01 dezembro 2005

assim como eu...

Dou comigo a rir-me do seu ar impertigado, de miúdo que tudo sabe. Às vezes mais vale deixá-lo no seu mundinho para não o irritar. Mas de repente, dá-me um ataque e tenho vontade de o tirar daquele pedestal e mandá-lo ao chão para que se parta em mil pedaços e se dê conta da sua mortalidade. É que ele acha-se Deus!
Um dia perguntei-lhe: "Miúdo, achas que com a tua fraca figura podes mesmo ser o dono do mundo?". E Ele responde-me: " Claro que não... não apenas deste. Olha para o céu. Vês as estrelas? Então quando acabares de as contar multiplica esse valor por 10. Aí terás o valor aproximado da minha propriedade. Sabes, é que não é apenas o sol que tem planetas... as outras estrelas também terão. E portanto tudo isto me pertence!".
"Ai sim?" - retorqui-lhe.
"Claro, tudo o que está ao meu alcance a mim se rende. São os meus olhos... E quando não querem e fazem-se de difíceis, eu faço-lhes ar de mau... assim... com as sobrancelhas, vês?!? E elas percebem logo que não há nada a fazer. Que não vale a pena contrariar-me. No fundo, elas sabem. Assim como tu..."

ideias à parte

A ideia. s. f., representação mental; representação abstracta e geral de um objecto ou relação; conceito; imagem; juízo; noção; opinião; maneira de ver; visão; visão aproximada; plano; projecto; intenção; invenção; expediente; lembrança.
Mais, aquilo que está por detrás de uma grande coisa. Mas afinal se é ideia porque raio tem de passar para o realizável? Isto deve ser uma conspiração dos materialistas, e portanto por convénio determinou-se que a ideia terá sempre um dia de passar para outra coisa bem mais objectiva.
Mas porquê? Porque é que não pode ficar assim, subjectiva? Subjectividade essa que lhe confere um carácter tão voluvél, tão delicioso, tão mutável? É isso que lhe possibilita aperfeiçoar-se, sem limites, até ao fim, ou até que assim nos apeteça. Juro que não entendo. Porque razão as coisas têm de objectivas, perenes até, se nós homens não o somos? Talvez seja por isso. Uma ideia objectiva e acabada será uma impressão digital daquilo que um dia fomos.
A questão é que se nós avançamos, porque é que a ideia não?

aforismo I, mas não de Pascoaes

Às vezes quanto mais se avança, mais se anda para trás.

26 novembro 2005

pensamentos suburbanos

Dói e não é pouco. Dói como um objecto cortante que trespassa o coração. Ou seja, quase não se sente. E quando se sente, aí, é tarde demais. É aí que a dor chega. A sensação flamejante que não dá lugar a outra coisa. É o tempo de um suspiro. E no momento em que para nosso descanso pensamos ser este, o último, é hora de continuar. De continuar a caminhar ainda que não se saiba para onde.
E é este o verdadeiro momento para se dizer: "Vai-se andando.".

27 outubro 2005

a coisa que é coisa

A coisa. Coisa que se diz, coisa que se fala, coisa que se sente, ou não. De um lado para o outro sem nunca parar para pensar nessa coisa.
A coisa. Para uns a coisa evidente, a coisa que é coisa, para outros nem tanto.
Certo dia pensei: "E se as outras coisas não vêem a mesma coisa que eu?". E foi então que me lembrei que por mais que a coisa seja a mesma, os olhos das coisas que vêem a coisa nunca o são!

18 outubro 2005

palavras a metro

"Gostaria de ser capaz. Capaz de fazer e sentir aquilo que realmente faço. Mas não. Preciso de um cigarro.", disse. Pouca sorte a minha, já tinha um na mão. Foi então que pensei fumar dois ao mesmo tempo.
"A realidade é de facto uma coisa relativamente fácil de manipular. Ou não. A verdade é que partindo de nós próprios conseguimos alterar determinados momentos. Basta conhecermo-nos. E é essa a nossa derradeira imperfeição. Raramente nos tratamos por tu. Na maioria das vezes, o exterior é muito mais lógico que nós próprios, ou pelo menos, assim o pensamos.
Por isso é que gosto tanto de universos paralelos. Universos estes que me permitem explorar apenas uma fracção daquilo que sou, conseguindo desta maneira ter uma perspectiva muito mais objectiva de mim própria. De um passo para outro. E assim dou o salto de fracção para fracção." Não é difícil, basta convencermo-nos disso.

lisboa a 18 de outubro e hoje quase um ano depois

Um dia destes pediste-me uma coisa. Não uma coisa qualquer, aliás, tu nunca pedes algo facilmente realizável. Tu pedes sempre o impossível. Esse foi apenas mais um desses momentos.
Pensei então escrever-te uma história, mas isso é a tua vida. És um contador de histórias, de lugares longínquos, de pessoas diferentes e locais inóspitos.
Tentei levar-te para um lugar de ideias, de sonhos e de fracções de segundo. Fracções de segundo que por si só bastam. Foram as últimas
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o menino que queria ensinar os pássaros a voar

dv2046006.jpg

Apareceu tão fugazmente quanto desapareceu sem deixar rasto.
Agradeço-lhe por não me ter acordado quando fechou a janela. Digo pela janela porque foi por ela que ele fugiu, mais uma vez. Chega-se de mansinho ao parapeito e parte, assim sem mais, sem barulho, nunca deixando para trás qualquer coisa que denuncie a sua presença. Eu nunca o vi verdadeiramente pois ele jamais se deixaria ver.
E assim nunca deixará de ser um sonho.
Certo dia, o menino assomou à minha janela. Fingi não o pressentir para que ele não ficasse desgostoso. Seria uma grande tragédia se o menino descobrisse que eu era capaz de reconhecer a sua presença. O menino precisa de pensar que é mais leve que uma pena e eu... eu faço-lhe a vontade.
Nada na vida é certo, o menino de cabelos encaracolados, muito menos.
De resto, eu já o sabia...
O menino vai e vem conforme o vento lunar. Eu não me importo, e é assim que gosto dele, com alma de pássaro. O pássaro menino que não prende, que não fica e que tudo pede.

23 setembro 2005

a lua clementina e o mar tela de pintor

lua clementina.jpg



A lua poderá ser uma clementina perdida no céu.
E mar cor de púrpura a tela de alguém que ainda não encontrou o caminho para casa.

As estrelas poderão não passar de inúmeros candeeiros que iluminam o Universo.

E as palavras que me escreves ainda não as li porque o vento, dissolvido, as perdeu.

Mas conta-me uma história e faz-me acreditar nela.

Prometo não questionar...

17 setembro 2005

limiar do perfeito

Um abismo. Um passo para a frente e outros tantos para trás. O medo, de avançar ou de ficar parada, é sempre o mesmo. É medo de errar, medo de morrer, medo de não viver. Seja o que for.
Podemos modificar, dividir, adaptar, diminuir, subtrair, reordenar, inverter, combinar, adicionar, multiplicar, reagrupar ou inverter até, mas não deixará nunca de ser o que é, de ter a essência da primeira coisa.
Pergunto, até que ponto é-nos permitido fazer algo fora dos limites da própria natureza, da base, do já perfeito?

16 setembro 2005

09 setembro 2005

subjectividades

Tudo acontece num determinado tempo e num determinado espaço. Quer dizer, talvez seja mais ou menos assim, afinal certezas, ninguém as tem. Até porque se pensarmos bem no assunto, o tempo e o espaço são variáveis altamente subjectivas.
Nada se repete. É único e diferente de todos os outros. É o aqui e agora que nunca mais volta atrás, ainda que por nossa vontade fosse repetido vezes sem conta, tal como o som resultante de um disco riscado.
Mas mesmo assim, nunca igual, nunca mais o verdadeiro.

16 julho 2005

não prendo, não fico e nada prometo

Um reflexo mudo no espelho. Uma imagem que por si só, de nada vale. Sou eu, ela e mais umas tantas outras. Todas diferentes e todas tão iguais. Se partilhamos a mesma matéria será por acaso.
Um passo seguido de outro. E se por vezes tudo parece incerto significa que estou a seguir o rumo correcto, disso tenho a certeza. Não somos adeptas do "continuísmo". Nunca fomos. Fecha-se uma porta e abre-se uma janela, isso é certo. Então porquê parar? Não prendo, não fico e nada prometo.
Tudo não passará de uma simples regra matemática: duas rectas paralelas apenas se cruzam no infini
to...

29 junho 2005

ana . logia

Se eu te fugir não corras atrás de mim.
Se te escorrer das mãos como areia ao vento, deixa-te ficar.
Nao tentes agarrar-me porque será em vão.

Aí será tarde demais.
Não gosto de olhar para trás.
A fracção de segundo deverá bastar-se a ela própria.
Será ela que me prende ao momento, como quem espera por uma única gota no deserto. É o instante em que a gota cai que vale por tudo.
Deixa-me correr.
Para onde, não interessa... é irrelevante e talvez o mais importante.
Não me dês terreno batido. Dá-me antes um caminho que nunca antes tenha sido pisado.
Deixa que o vento me guie até que tenha forças...
Serei feliz por ter percorrido o caminho sozinha. Assim terá de ser.
Deixa-me saber que consegui ser mais que eu própria.
Deixa-me saber que um dia me transcendi, que um dia me superei.
Deixa-me saber que um dia me substituí, por outra coisa que não eu.
Um dia hei-de parar... talvez no dia em que morrer.

27 junho 2005

o fabulouso mundo de Amélie e de todas nós

Não há palavras para descrever algo tão peculiar. Como cenário temos Lisboa e o Rio Tejo pintados em tons rosa. Num fim de tarde recriamos toda uma parafernália de personagens, falas e actos completos.
Nada nos pára. O mundo, ainda que apenas naquele instante, é nosso. Despimo-nos de preconceitos, de máscaras e somos nós.
Entre um café, um Martini, duas imperiais e alguns cigarros, rimo-nos, muitas vezes das nossas próprias desgraças e das nossas parvoíces. Abrimos a nossa alma. Sem medos, sem cerimónias. Assim somos nós. O eterno mundo feminino.
Pagamos a conta. Separamo-nos com beijos e sem que nos demos conta disso voltamos a vestir a "gabardine". Cada uma de nós volta ao ponto em que ficou nos inúmeros papéis que compõem a nossa vida...

21 junho 2005

subterfúgios

Acordei e estava muda. Não sei o que se passou. Foi assim, sem mais. O mundo que outrora fora meu, já não é mais.
As palavras são excelentes subterfúgios para substituir a nossa própria realidade, a nossa própria existência. Como diz Pedro Paixão,

"Escrever pode ser uma óptima desculpa para quem na vida não tem qualquer esperança. É uma maneira de preencher uma sombra e há momentos em que um beijo escrito vale por muitos. É sempre a vida, é claro, mas com a distância limpíssima das palavras. E tudo sofre de uma insuficiência que a arte tenta reparar e falha..."
Refugiei-me nelas, nos seus múltiplos sentidos, na sua dualidade inerente a alguma coisa que é composta por outras peças várias. Assim somos todos nós... uma multiplicidade de peças que pouco a pouco se encaixam umas nas outras. Ainda que não saibamos muito bem como.
As palavras são uma tentativa de encaixar tudo o que nos rodeia, uma manisfestação daquilo que vivemos. Fazem parte do nosso reflexo, o seu sentido varia conforme a pessoa que as profere. Assim como o silêncio... A ausência das palavras que mostra de forma irredutível que por vezes as palavras não chegam... aliás, quase nunca são suficientes. A concretização suprema é e sempre será o acto...

14 junho 2005

palavras já escritas...

Se alguém ainda não o tivesse escrito, provavelmente teria sido eu a fazê-lo... Está simplesmente "Quase Perfeito".
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Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Quase que não chegava
A tempo de me deliciar
Quase que não chegava
A horas de te abraçar
Quase que não recebia
A prenda prometida
Quase que não devia
Existir tal companhia

Não me lembras o céu
Nem nada que se pareça
Não me lembras a lua
Nem nada que se escureça
Se um dia me sinto nua
Tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua
Eu confesso não sai da cabeça

Se um beijo é quase perfeito
Perdidos num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der
O tempo a que temos direito

Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito

08 junho 2005

promete-me

No dia em que tu quiseres tomar conta de mim, eu vou dizer que sim.
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Promete-me apenas que me irás cantar ao ouvido baixinho e que me afagarás o cabelo até que eu adormeça.
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Promete-te também, que gostarás de mim... não precisa de ser muito, apenas um bocadinho.
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Promete-me que terás paciência para as minhas inúmeras perspectivas.
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Vais descobrir em mim alguns defeitos e uma multiplicidade de indecisões. Mas se assim for, devo advertir-te que não é por maldade... A ânsia de querer este mundo e outro faz com que nunca esteja satisfeita, que queira sempre mais.
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Promete-me que teremos longas conversas pela noite dentro até que o sol nasça de novo e que quando acordar ter-te-ei a meu lado.
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Terás de ser mais rápido que eu, para que eu possa continuar a correr.
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E de vez em quando terás de me contar uma história...
Prefiro não conhecer a verdadeira cor da realidade, por isso terás de pintá-la para mim!
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E mais importante que tudo isto, promete-te que me encantarás!
Encantada devolver-te-ei um sorriso...

23 maio 2005

hello!

Hoje o absurdo bateu-me à porta...
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E eu absurdamente deixei-o entrar.

16 maio 2005

the cannonball

A maior parte de nós não tem consciência da importância do momento, aquela fracção de segundo que faz a verdadeira diferença e muitas vezes que nos marca para sempre.
O gesto, a palavra proferida ou a ausência de ambos podem fazer que que um mundo se erga ou acabe naquele momento. Uma vez li que não somos nós que possuimos os gestos, ao invés, eles é que nos têm. E é esta imortalidade dos gestos que todos nós procuramos, de uma maneira ou outra. Eu procuro um sorriso... franco e sincero. E é esse sorriso que vai fazer com que o meu mundo se erga de novo. É esse gesto imortal que eu procuro sem descanso. É aquilo a que eu chamo de "estado de luz"... a felicidade pura.
Uma vez já o vi... é uma coisa que não se esquece. Passou de raspão por mim, tal como uma estrela cadente que mergulha no céu. E tal como uma estrela cadente que não se repete, também ele não volta a ser vislumbrado. Uma fracção de segundo que não volta a ser reconstituída. E seria fácil resignar-me a este facto se não tivesse sido eu a desviar os olhos enquanto o momento ainda existia. Agora apenas resta o vazio, para me mostrar invarialvelmente que a minha instabilidade faz-me perder algumas fracções de segundo que mereciam ser captadas. É disso que mais saudades tenho... do estado de luz que nos preenche a alma
, o momento de pura concretização.

15 maio 2005

closer

Às vezes sou sobressaltada com um nó na garganta, qualquer coisa que me impede respirar, como se tivesse uma mão em volta do meu pescoço. Depois, a mão torna-se maior e começa a esmagar o meu corpo, cada vez com mais força. Ás vezes a pressão é tão grande que a minha alma acaba por ser "despejada" da matéria. E é neste processo doloroso, que o meu inconsciente toma conta de mim, como que quisesse lavar-me a alma, o meu ego, de tudo o que me rodeia. Depois, resta uma sensação de pureza, de paz de espítito. A mesma mão que me magoa é aquela que depois me liberta com uma profunda sensação de bem estar, é aquela que me permite transcender para além do espaço e do tempo. É nesta altura que eu morro e renasço... das palavras e das cores. Sim, acho que isto não passa do meu processo de substituição de que falei uma vez. É esta substituição que me permite manter um pouco de sanidade, este processo que me sossega e me mantém mais serena. Serenidade esta que aparentemente todos desejam que eu atinja, ainda que nem eles e nem eu saibamos muito bem como.
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"still a little bit of your song in my ear
stiil a little bit of your words i long to hear
you step a little closer to me
so close that i can´t see what´s going on" (in Damien Rice)

05 maio 2005

uma página ao acaso

"Ela era uma rapariga especial, cada passo e cada palavra sua tinham um colorido e um cunho especiais, e nem sempre era fácil segui-la e acompanhar o seu passo. (...) Era muito singular, e tornar-se-ia difícil viver junto dela e seguir a sua culta altivez, pois desta não suportava ouvir falar. Além do mais, também não era muito forte e saudável e suportava mal, nomeadamente a sociedade e as festas. O seu maior prazer era viver com flores e música, e eventualmente um livro em seu redor, em silenciosa solidão, e deixava que o mundo prosseguisse no seu caminho. Por vezes era tão delicada e sensível, que por tudo quanto fosse estranho a magoava e facilmente lhe provocava lágrimas. Depois, novamente ficava radiante, silenciosa e delicada na sua felicidade solitária, e quem isto observava senti quão difícil seria ofertar e representar algo para esta mulher bela e singular. "
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Contos Maravilhosos, Herman Hesse

04 maio 2005

what is essential is invisible to the eye

Antes de sair pela porta tenho sempre uma esperança tonta de encontrar alguma coisa que denuncie a tua presença. Como disse é uma esperança tonta, mas agora tornou-se quase como que um ritual. Olho para a direita, depois para a esquerda... nada. Não foi hoje. Não faz mal, só o facto de o continuar a fazer dá-me algum conforto. Fazes-me falta sabias? E este ritual é apenas uma maneira de me lembrar de ti. Tu, que roças o desconcertante, o absurdo. Não és necessariamente mau... muito pelo contrário.
Tu és a imagem que eu criei à minha semelhança, pode-se dizer que és a minha outra parte. Eu sei que não existes... mas é tão bom acreditar em ti...

29 abril 2005

a insustentável leveza... da paixão

Hoje vou falar-vos de um assunto mais que batido "em praça", mas no entanto sem solução aparente!
Estava eu no carro, naquelas filas que nunca acabam, quando dei por mim com uma teoria fantástica sobre a paixão (sim porque o trânsito dá-me para estas coisas... deve ser da elevada concentração de CO2).
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E então é assim,
Todos nos apaixonamos, a bem ou a mal. E é certo e sabido que normalmente as coisas correm mal e quantos de nós não gostaría de voltar atrás para emendar uma coisa ou outra!?
Pois é... mas comigo não é bem assim... e foi o "reason why" disto que eu descortinei, dissequei até, durante a minha a minha travessia pelo maravilhoso rio Tejo.
A conclusão a que cheguei? Espero que o "acesso" me passe. Certinho, direitinho! É infalível!
Como já fiz questão de vos dizer a paixão é resultado das nossas homonas e outros processos psico-biológicos e por esta razão tem prazo de validade. E portanto, em vez que andar a fazer maluqueiras fico sentada pacientemente à espera que o ataque se dissipe. O que não quer dizer invariavelmente que não me apaixone... Apenas lido com "isso" de uma maneira talvez pouco ortodoxa. Sabem, normalmente nós temos tendência a criar um conceito, uma imagem (muito pouco real, deixem que vos diga) da outra parte e a crise está mesmo aí... Essa imagem acaba por consumir e até atraiçoar-nos o nosso bom senso... Ás vezes chega a apoderar-se dos nossos dias, da nossa vida... felizmente, apenas durante escassos dias ou com azar alguns meses.
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O cerne da questão está em aproveitar a parte boa e deixá-la no pedestal.
Hoje não estou com muita paciência para explicar tudo tim-por-tim, mas quanto mais alimentamos a paixão, mais forte ela fica.
Por isso eu deixo-a morrer à fome.

26 abril 2005

sou pelo meu "Plantinha"!

Este espaço é dedicado ao meu cão...
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Não vou falar sobre ele, não vale a pena. Vale sim, tudo o que restou depois da sua morte.
E o que ficou foi essencialmente o conceito... de "cão maravilha".
f12.jpg

15 abril 2005

!

Só como nota para que não me esqueça, tenho de fazer um post sobre a minha psicose sobre a substituição pessoal e a arte enquanto elemento fundamental nesse processo. Complicado, hein? Por isso é que não o faço agora...

26 março 2005

25 março 2005

confissão de pedro paixão

"Escrever pode ser uma óptima desculpa para quem na vida não tem qualquer esperança. É uma maneira de preencher uma sombra e há momentos em que um beijo escrito vale por muitos. É sempre a vida, é claro, mas com a distância limpíssima das palavras. E tudo sofre de uma insuficiência que a arte tenta reparar e falha..."

21 março 2005

porque não se deve matar a saudade doce

TIPOS DE SAUDADE...
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1) A que dói, a que corrói por dentro, aquela que mata. A que sobrevive e nos afoga lentamente porque, um dia, ficou algo por fazer. O que mata não é a saudade em sim, mas a incapacidade que temos de poder voltar atrás no tempo de maneira a refazer, ou melhor fazer, as coisas de novo. Acho que é mais isto...
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2) A saudade triste, a saudade melacólica, a que demonstra claramente que não conseguimos ultrapassamo-nos e dar mais um passo em frente. A saudade do medo como gosto de chamar-lhe... a esta trato-a por tu.
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3) A saudade doce. Esta é a mais díficil de explicar e por isso ficou para o fim.

Vejamos...
Fecha os olhos, imagina-te no teu sítio preferido, concentrata-te, já chegaste? O que vês?
Eu vejo um sorriso. A saudade doce é mesmo isto. A saudade doce é aquela que deixa um rasgo de alegria, um gosto doce, um sorriso. E esta é talvez a melhor saudade que se pode ter, é esta que nos enche de um sentimento bom, um sentimento reconfortante: a felicidade.
A saudade que nos mostra que já tivemos os nossos momentos de felicidade pura, ainda que momentâneos, nunca últimos.

onde... 17 de março, amesterdam

Onde o céu é algodão,
Onde as fachadas apontam indiscretamente para o vizinho,
Onde a chuva pára nos dias em que estou aqui e o sol vem dizer - "Olá!",
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Onde os marshmallows desaparecem subitamente sem que ninguém perceba muito bem como,
Onde tecnicamente devíamos estar afogados por esta altura,
Onde o queijo se chama Gouda,
Onde as paredes são postais
E este é apenas mais um...
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06 março 2005

a palavra no momento certo

Não tem necessariamente de ser original... geralmente o importante é vir na altura certa. Infelizmente, de vez em quando, não nos damos conta que não somos apenas o único bicho estranho à face da terra e uma palavra na altura certa ajuda a criar um certo alento para enfrentar o dia que segue.

"
Se eu me tivesse que definir era como vadio. Disse de mim para mim: desconhece-te a ti mesmo. É uma maneira de chegar ao oco, ao mar de onde venho, tudo o resto, mesmo a linguagem são aquisições do exterior. Eu não quero continuar nada. Por isso não acredito nas coisas feitas diariamente, esse "continuísmo" tem dado cabo da cabeça de muita gente.
"

04 março 2005

02 março 2005

hoje sinto-me...

blog2.jpg
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...um peixinho vermelho fora d´ água.

o beijo

O primeiro e nunca último...
Elo discreto e poderoso que sela palavras que nunca chegam a ser proferidas. Este sim, o mais perfeito modo de concretização. É ele que encerra o mais puro dos sentimentos num doce e harmonioso silêncio. É com ele que expressamos aquilo que por palavras nos é censurado e por isso carrega um grande peso... o da insegurança do nosso Eu. Afinal, qual é a verdadeira faca de dois gumes senão o momento em que nos despimos da nossa fachada; senão o medo e a ânsia de pertencermos a alguém?
Passamos a vida a representar um papel para o qual muitas vezes nos sentimos à deriva. Mas é neste momento que a máscara cai, o pano sobe e se ouvem aplausos. É neste aqui e agora que se revela a verdadeira essência da nossa "outra parte" (Paulo Coelho in Brida).
O primeiro é sempre o mais complicado, mas talvez por isso, o que nunca esquecemos, o que nos faz sentir qualquer coisa de muito estranha e que nos percorre o corpo por inteiro.
O primeiro é aquele que mostra que, pelo menos, ainda não por enquanto, encontrámos o que todos procuramos... o momento de perfeita realização um no outro.

ao estilo de navarro-costa

Nota de introdução:
Este texto é unica e exclusivamente da responsabilidade de um amigo muito querido, Paulo Navarro Costa. Apreciem-no. Bem-vindo a este espaço!
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É muito longe e eu não posso levar este corpo… É pesado demais…”

Saint-Exupèry, in O principezinho.


“Je croyais que ça n’arrivait que aux très vieilles gens, d’avoir semé sur leur chemin tous leurs amis, tous”.

Saint-Exupèry, 1940.


- Hoje escrevo eu – digo ameaçando o écran branco-anémico que repousa provocantemente no topo da secretária. Não será como os outros dias, em que deixo a folha áspera do caderno guiar a caneta como lâmina de barbear em rosto mal dormido. Nesses dias, não sou eu que escrevo. É a folha. É a caneta. Ambas se servem dos meus dedos para rituais perversos, num jogo de domínio e submissão em que se usa e ousa.

Hoje não será assim. Defronte de mim tenho uma constelação de teclas que dedilharei como as costas de uma amante, pele macia, arrepio que começa com “pause” e termina com “enter”. As teclas afundam-se após uma suave pressão, sinto a resistência do écran que progressivamente se escurece com nuvens de verbo. Terei que atingir a quota de bytes suficiente para chegar ao precipício desta folha, precipício esse que estabeleci como meta para o meu esforço e para a vossa paciência.

Precipício e principezinho são palavras tão parecidas. O mesmo altivo “p” a iniciá-las, o “r” matreiro logo a seguir, aquele “cip” a meio, a língua já lúbrica com promessas que são desfeitas por um terminar abrupto, forçado pelo “c” ou “z”, onda violenta na rocha depois de canto de sereia. A Bárbara é assim. Quero dizer, a escrita da Bárbara é assim.

Ela leu o livro de um fôlego, impulsiva como é. Eu não. Intercalei-o com um livro sobre a guerra colonial e outro de poesia. Curiosa combinação, dirão alguns, mas todas as noites milhões de personagens morrem em livros. É caso de perguntar, quantos já matou, caro leitor?

Pelo que conheço dela, certamente que é Petite Princesse, mas como na elegante gravura que adorna a sua página, também é raposa sedutora. Pois é a mesma Bárbara que nos avisa, “É porque é, e assim fica sem mais explicações”, aquela que maliciosamente nos tenta com rendilhados linguísticos, bondage metafórico “É esse toque de magia que nos permite criar laços uns com os outros”. Nó cego, segue o texto para o precipício. Com distância de segurança.